domingo, 16 de dezembro de 2012

Recordações da Ilha Esmeralda num Beef and Guinness Stew

Diz Bill Bryson num dos seus livros a propósito da sua primeira vinda à Europa que nunca tinha visto um pão inteiro, uma passadeira ou alguém a usar uma boina e esperar que o levassem a sério. Escreve igualmente sobre a vista do avião, e esse texto não consigo encontrar, quando sobrevoou o velho continente. Essa mesma passagem regressou-me ao ouvido ao ver a Irlanda pela segunda vez lá em baixo. Era Julho tardio, ainda trazia comigo o sono das duas horas e meia de avião, uma noite mal dormida e um voo madrugador quando comecei a avistar o imenso prado verde, intensamente verde que se estendia como um enorme tapete de musgo lá longe, lá em baixo, recortado em retalhos de intensidade diferente.  Chegar a Portugal não é assim. Sobrevoar Lisboa é uma das experiências mais avassaladoras que conheço, mas a camada de musgo infindável e a aparente arrumação da paisagem aos nossos pés faz-nos sentir que aquela é uma outra Europa ou que será a mesma e talvez por isso este território seja tão curioso nas diferenças que nos unem ou separam.


Quando a porta do avião se abriu havia um aroma característico: puro, fresco, um misto de relva acabada de cortar, terra húmida e a animais, como se tivesse entrado afinal numa enorme quinta ou aterrado no meio dela. Nada faria sentir que o meu destino era afinal uma cidade, a segunda maior da Irlanda, a terceira mais populosa, situada em pleno rebel county. Cork seria então. Cork seria a minha casa nas semanas seguintes e ficaria comigo mais do que o tempo permite, de resto, como toda a Irlanda.

Cork.

English Market, Cork.
A cidade é pequena, o centro fica quase delimitado pelas margens do rio Lee e não tem monumentos dos que qualquer turista almeja para se fixar em fotografias. São dias de calmaria como muita gente nas ruas, muitos pubs, e um ambiente tão característico que dificilmente se deixará explicar nestas linhas breves. Há que senti-lo. Acredito cada vez mais que há que dar tempo às cidades, tal como damos às pessoas. Para que se revelem, se deixem mostrar compassadamente, sem pressas. São as voltas que se dão St. Patrick´s street, Panna para os Corkonians, acima e abaixo, as incursões no Huguenot Quarter, são os passeios ao English Market, um regalo para foodies e curiosos, e a aproximação que não se consegue ter em dois dias de correria a que a nossa condição de turista nos condena, é o rio Lee que nos cumprimenta, o Loch lá no alto que mais parece que estamos no campo, os inúmeros pubs, acolhedores como só eles, um espelho fiel da alma irlandesa, e os Corkonians, gente de fibra que se revoltou contra a supremacia inglesa sempre de alma guerreira, nostálgica e sofrida pelas partidas que o destino lhes tem pregado. Mas a Irlanda é mais Cork e mais que Dublin, a capital da qual não falarei aqui. É um imenso património cultural, rico e intenso, de gente lutadora que nunca se deixou derrotar apesar de a História lhe ter sido muitas vezes madrasta. É campo e cidade, é tristeza e alegria, é frio e chuva, é tudo menos sensaborona e indiferente, uma identidade forte e uma alma com quem partilhamos uma certa nostalgia e a revolta dos pequenos e humilhados nos tempos presentes. E depois é provar, comer, degustar: sea food chowder, salmão bem fresco, ostras tão grandes como nunca as tinha visto, um bolo de cenoura que ainda hoje me salta aos olhos e o imprescindível guisado, Irish ou Beef and Guinness Stew, acompanhado de uma Rebel ou Smithwicks, o prato que terei comido num almoço de sexta-feira quando o inexplicável frio de Agosto me fazia lembrar os Invernos lusos.  As saudades que tenho da Irlanda.
Waterstones, Cork.

Dingle
Dingle Peninsula






Beef and Guinness Stew

Ingredientes
500 g de carne de vaca cortada em cubos
2 dl de Guinness
4 dl de caldo de carne
Batatas
Cenouras
Cebolas
Sal
Pimenta preta
Farinha
Tomilho
1 folha de louro
Óleo (usei azeite)

Preparação
Pré-aquecer o forno. Temperar a carne levemente com sal e pimenta preta acabada de moer.  Passar por farinha. Levar uma frigideira ao lume com um fio de azeite e deixar fritar a carne cerca de cinco minutos. Retirar para um tacho e reservar. Na mesma frigideira, fritar as cebolas cortadas em rodelas sem as deixar murchar completamente. Deitar no tacho por cima da carne. Juntar a Guinness, o caldo de carne, o tomilho e a folha de louro. Levar ao forno cerca de hora e meia. Rectificar o tempero e juntar as batatas e as cenouras e levar outra vez ao forno até os legumes estarem cozidos.



Aqui fica a minha participação na iniciativa "Convidei para jantar" da Anasbageri. Nesta 9ª edição a Marmita foi anfitriã e convidou-nos a convidar cidades e/ou países. A Irlanda é um dos meus países preferidos, um povo por quem tenho o maior respeito bem como pela sua história e cultura.. Espero ter-lhe feito jus. 

12 comentários:

Maria disse...

Minha querida, nao so fizeste jus como despertas com o teus texto e fotos uma vontade enorme de ir visitar o teu pais do coracao. Visitar com calma, tal como dizes, para o saborear.
Um dos meus livros favoritos " As cinzas de Angela" conta a historia deste povo de uma forma tocante e emocionante. Se nao leste, aconselho-te vivamente.
Adorei tambem o prato que decidiste apresentar. Tudo excelente, como estava a espera. Beijinhos
Maria

Marmita disse...

Adoreiiiiiii, sabes que eu sou uma grande fan do actor Cillian Murphy que nasceu em Cork como tal já tinha visto alguns filmes que ele fez em Cork e outros sobre a historia da Irlanda, deve ser sem duvida uma cidade linda! Adorei o teu post e muito obrigada por partilhares um beijo

Leonor disse...

Obrigada, querida Maria. Gosto mesmo muito da Irlanda mas o factor tempo foi determinante. Já lá tinha estado duas vezes, só que desta tive mais tempo para sentir e fez toda a diferança.
Não li esse do Frank McCourt, li Teacher Man. Vou anotar :)
Muitos beijinhos e muito obrigada pela visita.

Leonor disse...

Bem-vinda, Marmita! Adorei este tema que escolheste, foi o que mais me falou ao coração.
Cork é uma cidade pequena mas acolhedora. Os pubs são o máximo e aquela sensação de campo na cidade é provavelmente a característica mais engraçada. Têm um lago numa das colinas que parece uma vila.
Fui ver o Cillian Murphy, não conhecia :)
Obrigada pelas tuas palavras.
Beijinhos

São Ribeiro disse...

Gostei de todo do pais das lindas fotos e dessa delicia de comida.
Uma excelente participação.
boa semana
bjs

Leonor disse...

Obrigada, São :)
Beijinhos e boa semana

CNS disse...

Adorei esta pequena viagem, Leonor. Não conheço a Irlanda, mas está na lista ;)
E este guisado parece-me lindamente !

Leonor disse...

É um sítio diferente, Cristina, tem de se ir um pouco além da superfície. O guisado é óptimo para estes dias. Comfort food no seu melhor :)
Beijinhos

Susana Figueiredo disse...

Também comi uma vez um destes guisados na Escócia. São tão bons!!! Parabéns pelo post. Beijinhos!

Ivone Costa disse...

Gosto muito deste teu blogue, Leonor. Dos textos com que acompanhas as receitas, das fotografias. Eu cozinho muito pouco, mas gosto imenso. É todo um mundo, a filosofia e a magia ao mesmo tempo.
E a Irlanda, sim, pressinto que gostaria.

Leonor disse...

Gosto muito, Susana. Na Escócia comem-se umas coisas engraçadas: Haggis e Arbroath smokie, isto para não falar das pies deliciosas e dos scones. Estou cheia de saudades de revisitar alguns desses sítios :)
Beijinhos

Leonor disse...

Obrigada, Ivone. Como já disse algures por aí, preciso de outro tipo de blogue, outro tipo de escrita e até de outro tipo de comentadores sem animosidade nem agressões gratuitas. Este espaço é tranquilo.
Gosto muito de cozinhar, mas cozinho menos do que gosto desta maneira. Engordo imenso e não me posso deitar à cozinha como gostaria. E isto é blogue de amadora: as fotos são tiradas na hora, a contra relógio, antes da refeição.
Beijinhos